Neste 25 de julho, data em que são celebrados o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e, no Brasil, o Dia Mulher Negra, e o Dia de Tereza de Benguela e Nacional, a força e o protagonismo feminino ganham voz na comunidade quilombola de Barra de Aroeira, em Santa Tereza do Tocantins. “São as mulheres que sempre estão na luta e são sempre as mulheres que encorajam os homens a lutar juntamente conosco”. A afirmação é da presidente da Associação Comunitária dos Quilombos de Barra de Aroeira (Abarra), Natália Rodrigues Bispo do Nascimento Pereira, e sintetiza a trajetória de mulheres que, há gerações, sustentam a resistência, preservam a memória e ajudam a escrever a história da comunidade.
Para marcar a data, o Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO) foi até a comunidade conhecer de perto histórias de mulheres que transformam a luta, a liderança e o cuidado com o território em um compromisso diário. A data é um chamado à visibilidade da importância do protagonismo das mulheres negras e à renovação do compromisso com a promoção da igualdade racial e de gênero. Luta de mulheres como a presidente da Abarra, Natália Rodrigues; a primeira presidente da associação, Maria de Fátima Rodrigues; e a jovem da comunidade, Lucycléia Fernandes Rodrigues.
Em Barra de Aroeira, o protagonismo feminino se revela na liderança comunitária, na agricultura, no artesanato, na educação dos filhos e na preservação da memória do quilombo. Em diferentes gerações, mulheres compartilham o mesmo propósito, garantir que as conquistas do passado abram caminhos para o futuro.
Resistir também é seguir em frente
Mais de um século após a abolição da escravidão pela Lei Áurea (Lei nº 3.353/1888), mulheres negras ainda enfrentam desafios impostos pelo racismo e pela desigualdade social. Para Natália, essas barreiras continuam presentes no cotidiano. “Ser negra não é fácil! Ser grisalha, cabelo enrolado, cacheado, crespo, não é fácil. Ainda mais em uma sociedade que nos impõem estar dentro de uma caixinha. Nós sofremos racismo verbal, racismo sobre a pele, cabelo, até pelo modo de como a gente fala ou convive, dentro do próprio quilombo, inclusive racismo ambiental”, revelou a presidente Natália Rodrigues.
Apesar das dificuldades, ela acredita que a transformação passa por um simples gesto, a empatia.
“A empatia, o colocar-se no lugar do outro, faria uma grande diferença para vivermos em uma sociedade mais igualitária”, afirma.
Aos 29 anos, mãe de dois filhos e eleita presidente da associação em maio deste ano, Natália representa uma nova geração de lideranças que mantém viva uma luta iniciada muito antes dela. Uma luta por território, identidade, respeito e igualdade de oportunidades. Sua pouca idade não foi impeditivo para ocupar o cargo; pelo contrário. Seu nome, aclamado pela comunidade, teve respaldo nas urnas no último dia 31 de maio de 2026, ao ser eleita com quase 200 votos, 186 no total. Mas o peso da presidência revela a base de seu alicerce para encarar a lida pelos avanços da comunidade de seu povo.
“É preciso muita força, união, determinação para ajustar as coisas que estão fora do eixo. E que, no decorrer dessa caminhada, independentemente das circunstâncias, que nós venhamos a aprender, amadurecer e crescer, e possamos ter mais força para podermos lutar para conseguir tudo aquilo que tiver ao nosso alcance”, ponderou.
Embora muito forte e imponente para enfrentar o mundo e suas desigualdades, quando o assunto é a maternidade e o que espera do mundo para os filhos Maria Luísa, de 10 anos, e Arthur Henrique, de 7 anos, um misto de emoções toma conta e transborda em seu olhar altivo. “Que o futuro pegue leve, porque ninguém nasce com o manual de sobrevivência. Que, independentemente dos caminhos que eles escolherem seguir, eles saibam que, no fim, tudo vale a pena. Vale a pena porque é crescimento, é sabedoria. É algo que vai ficar para a vida deles. E que o futuro seja aliado e não inimigo”, finalizou.
Memória que ensina
Antes de Natália, outra mulher ajudou a consolidar a organização da comunidade. Agricultora, artesã e conhecida por todos como Dona Andreza, Maria de Fátima Rodrigues foi a primeira presidente da Abarra e voltou a ocupar o cargo em um segundo mandato. Enquanto trabalhava como merendeira da Escola Municipal Horácio José Rodrigues durante 26 anos, também liderava a associação e ajudava a criar os sete filhos ao lado do marido, Elias Fernandes Rodrigues. Hoje, celebra a família ampliada com 11 netos.
Ao falar sobre o Dia da Mulher Negra, ela lembra que igualdade ainda é uma conquista em construção.
“Às vezes dizem para comemorarmos o 13 de maio, mas eu respondo que não. Ainda enfrentamos discriminação no trabalho e em muitos espaços. O que queremos é ser tratados como qualquer outra pessoa, com os mesmos direitos e oportunidades”, reforçou.
Pelas ruas da comunidade, Dona Andreza aponta uma das vitórias que mais a emocionam, a escola que hoje leva o nome do primeiro professor do quilombo. “Nós queríamos homenagear o nosso primeiro professor e, graças a Deus, com muita luta, conseguimos essa homenagem e colocar o nome dele na escola local da comunidade, que hoje é a Horácio José Rodrigues”, relembra Dona Andreza.
A escola onde estudou, em 1976, era construída em adobe. Hoje, simboliza parte da história construída pelos próprios moradores. Reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como comunidade remanescente de quilombo desde 2006, Barra de Aroeira reúne cerca de 120 famílias em uma área de aproximadamente mil hectares, sob Título Real de Concessão de Uso. Para Dona Andreza, a conquista da titularidade da terra foi uma das maiores vitórias da comunidade.
“Atualmente eu trabalho mais com o artesanato, mas nunca larguei a roça. Com muita luta, conseguimos a titularidade dessa área”. Ao falar da terra que lhe garantiu outra trajetória, além da agricultura familiar, Dona Andreza lembra que encontrou no artesanato uma nova fonte de renda. Das mãos acostumadas ao cultivo nasceram as biojoias produzidas com capim-dourado, vendidas para diferentes estados brasileiros e responsáveis por complementar a renda da família. As peças produzidas com o ouro do Cerrado já chegaram a feiras na Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Brasília e outros estados.
O futuro começa pela educação
A terceira geração desta reportagem é representada por Lucycléia Fernandes Rodrigues, de 26 anos. Formada em Letras, ela cursa simultaneamente Enfermagem, Nutrição e Educação Física. Além disso, trabalha como técnica de enfermagem na unidade de saúde da comunidade e exerce a função de tesoureira da associação.
“O meu objetivo sempre foi estudar. Casei cedo, tive filho ainda jovem, mas, com o apoio da minha mãe, consegui continuar. Os jovens precisam acreditar que a educação transforma. Aqui existem oportunidades de emprego e nós mesmos podemos ocupar esses espaços, basta querer”, disse.
Ao lado de Natália e Dona Andreza, Lucycléia mostra que a história da Barra de Aroeira continua sendo escrita por mulheres que preservam o passado, enfrentam os desafios do presente e investem na construção de um futuro com mais oportunidades para as próximas gerações.
Judiciário e equidade racial
Os desafios enfrentados pelas mulheres negras também se refletem no Poder Judiciário. Dados do painel Justiça em Números mostram que, atualmente, o Brasil registra 15.438 processos criminais relacionados ao crime de racismo. Desse total, 97,2% tramitam na Justiça Estadual. Somente em 2026, já foram distribuídos 4.738 novos processos.
Em um país marcado pelo racismo estrutural e por desigualdades sociais e raciais, o Poder Judiciário do Tocantins tem fortalecido políticas voltadas à inclusão e à diversidade. Entre elas está a adoção do Protocolo para Julgamento com Perspectiva Racial, recomendado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que orienta magistradas e magistrados a considerar o contexto histórico e social das relações raciais na análise dos casos.
Para a presidente da Comissão Gestora de Políticas de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade do Poder Judiciário Tocantinense, desembargadora Angela Issa Haonat, o 25 de julho representa um momento de memória, resistência e reafirmação da luta contra o racismo, o sexismo e todas as formas de exclusão social. “Reconhecer a trajetória e a contribuição das mulheres negras, latino-americanas, caribenhas e quilombolas é também assumir o compromisso de enfrentar as desigualdades históricas que ainda limitam o pleno exercício de seus direitos”, destaca a desembargadora.
Segundo a desembargadora Angela Haonat, valorizar histórias como as vividas na Comunidade Quilombola Barra de Aroeira evidencia o pacto do Judiciário tocantinense com uma Justiça mais inclusiva e atenta às diferentes realidades da população.
“Ao relembrarmos o legado de Tereza de Benguela e valorizarmos as vozes das mulheres da comunidade quilombola Barra de Aroeira, destacamos o compromisso do Poder Judiciário com uma Justiça acessível, antirracista e sensível às diferentes realidades vivenciadas pelas mulheres negras. Promover equidade significa assegurar escuta, participação, reconhecimento e condições concretas para o pleno exercício da cidadania”, conclui.