Prisioneiros são acusados de crimes contra a humanidade; conflito no país africano já chega ao 11º dia e 459 pessoas já morreram e 4.000 ficaram feridas
O cessar-fogo de 72 horas mediado pelos Estados Unidos e imposto na terça-feira, 26, no Sudão, não foi respeitado e presos acusados de crimes contra humanidade fugiram em meio ao caos. “A pausa não foi completamente respeitada, com ataques contra bases, tentativas de ganhar terreno, ataques aéreos e explosões em diferentes áreas da capital”, informou o representante da ONU no país, Volker Perthes, ao Conselho de Segurança. Como aconteceu nos anúncios anteriores de cessar-fogo, os lados se acusam mutuamente de não respeitá-lo. Desde o dia 15 de abril há um grande conflito entre os dois generais que disputam poder: o chefe do Exército, Abdel Fatah al Burhan, e seu ex-aliado Mohamed Hamdan Daglo, que comanda as paramilitares Forças de Apoio Rápido (FAR). Segundo as agências da ONU, 459 pessoas já morreram, 4.000 ficaram feridas e não há sinais “claros de que algum deles esteja pronto para negociar seriamente”, disse Perthes. Em meio a esse caos que fez com que vários países retirassem seus cidadãos do país africano, vários acusados de crimes contra a humanidade fugiram. Um funcionário de alto escalão do antigo regime islâmico do Sudão, acusado de crimes contra a humanidade, confirmou que fugiu de uma penitenciária, assim como outras figuras do governo anterior, em meio aos combates violentos que devastam o país, o que provoca temores de agravamento do conflito após um frágil cessar-fogo. Ahmed Harun, um ex-conselheiro do ditador Omar al Bashir, deposto em 2019 após grandes protestos, confirmou que vários funcionários do antigo regime fugiram da prisão de Kober.
Harun e Al Bashir são procurados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por “crimes contra a humanidade” e “genocídio” na região de Darfur, oeste do Sudão, onde o conflito que começou em 2003 deixou 2,5 milhões de deslocados, de acordo com a ONU. Al Bashir, 79 anos, também estava na penitenciária de Cartum, mas o exército informou que ele foi transferido para um hospital antes do início dos confrontos em 15 de abril. O ex-ditador e outros integrantes de seu regime foram levados para um hospital militar “devido a suas condições de saúde (…) e permanecem no hospital sob vigilância da polícia judicial”, afirmou o exército em um comunicado, sem revelar a data da transferência. Esta foi a terceira fuga de uma prisão registrada desde o início dos combates. “Ficamos no centro de detenção de Kober, sob o fogo cruzado desta batalha durante nove dias. Agora assumimos a responsabilidade por nossa proteção em outro lugar”, disse Harun na terça-feira a um canal de televisão sudanês.
Enquanto os países retiram seus cidadãos do conflito, os sudaneses permanecem entrincheirados em suas casas e tentam sobreviver sem o abastecimento de água ou energia elétrica, com escassez de alimentos e cortes de internet e linhas telefônicas. Em um vídeo, o grupo paramilitar afirma ter tomado o controle de uma refinaria e de uma central elétrica 70 km ao norte da capital, de cinco milhões de habitantes. Diante dos confronto e do aumento da intensidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu na terça-feira, 26, para os riscos biológicos “elevados”, depois que um dos lados beligerantes ocupou um laboratório que armazena agentes patógenos do sarampo, cólera e poliomielite. Um relatório da ONU alertou que a escassez de comida, água, medicamentos e combustíveis estava se tornando “extremamente aguda, em particular em Cartum e seus arredores”. “Em alguns locais, a ajuda humanitária é a única que mantém a fome sob controle”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. A ONU calcula que até 270 mil pessoas podem fugir do Sudão para os vizinhos Chade e Sudão do Sul. O Sudão tem um longo histórico de golpes militares. A disputa entre Burhan e Daglo, que se aliaram para derrubar os civis do poder em 2021, é uma consequência dos planos de integrar as FAR ao exército oficial.
*Com informações da AFP
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