A legislação brasileira avançou na garantia de direitos das pessoas com deficiência, mas a inclusão da população surda ainda encontra limites quando o assunto é ascensão profissional. Embora a presença desse público no mercado de trabalho tenha crescido nos últimos anos, a ocupação de cargos estratégicos, posições de liderança e espaços de decisão continua restrita. Para muitos surdos, a contratação ainda representa o teto da inclusão e a oportunidade de empreender permanece distante.
A consequência aparece nos indicadores de empregabilidade e na escassez de referências empresariais capazes de demonstrar que a surdez não constitui impedimento para criar, liderar e expandir negócios.
É sobre essa lacuna que o Sebrae Tocantins propõe uma reflexão no próximo dia 25 de junho, durante evento destinado à comunidade surda. A programação contará com intérpretes de Libras em todas as etapas e terá como destaque a participação do empresário Breno Oliveira, fundador da rede de gelaterias Il Sordo, caso que se tornou referência nacional ao unir crescimento empresarial e acessibilidade. A iniciativa integra as estratégias da instituição para ampliar o acesso ao empreendedorismo e fortalecer a participação econômica de grupos historicamente sub-representados.
A trajetória de Breno ajuda a compreender por que o debate se tornou necessário. Antes de abrir a própria empresa, ele enfrentou dificuldades comuns a milhares de brasileiros surdos, que são as barreiras de comunicação, desconfiança de empregadores e poucas perspectivas de crescimento profissional. Instrutor de Libras à época, acumulou experiências em processos seletivos nos quais sua capacidade profissional era frequentemente colocada em dúvida em razão da deficiência auditiva.
Porém, o que começou como uma iniciativa modesta se transformou em uma rede de franquias reconhecida nacionalmente. Hoje, a Il Sordo possui unidades próprias e franqueadas, emprega trabalhadores surdos em diferentes funções e alcançou faturamento anual superior a R$ 1,6 milhão. O negócio ganhou notoriedade por incorporar a acessibilidade à própria identidade da marca, com atendimento em Libras, comunicação inclusiva e um ambiente concebido para reduzir barreiras de interação entre clientes ouvintes e profissionais surdos.
A trajetória de Breno evidencia um desafio que ainda atravessa a realidade de milhares de brasileiros surdos: a diferença entre estar inserido no mercado de trabalho e ter acesso real às oportunidades de crescimento econômico.
Para o analista do Sebrae Tocantins, Wandemberg Pereira Rodrigues, o debate sobre inclusão ainda costuma ficar restrito ao acesso ao emprego, sem considerar aspectos fundamentais para a autonomia econômica, como capacitação, crédito e empreendedorismo.
“O empreendedorismo amplia oportunidades e permite que mais pessoas sejam protagonistas de suas próprias trajetórias. Quando a comunidade surda tem acesso à informação, qualificação e exemplos concretos de sucesso, as possibilidades de crescimento profissional se tornam mais visíveis”, ressalta.
Ainda segundo o analista, ao trazer a experiência de Breno Oliveira, o Sebrae amplia essa discussão e demonstra que a deficiência não limita a capacidade de empreender. “A iniciativa também reforça a importância da acessibilidade como ferramenta de desenvolvimento econômico, especialmente em um cenário no qual pessoas surdas ainda enfrentam obstáculos para acessar conhecimento, redes de relacionamento e oportunidades de negócio”, finaliza.
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