2ª Semana da Saúde encurta caminhos e leva diagnóstico e atendimento a crianças com autismo e outras neurodivergências no Tocantins


“Já tem mais de um ano que eu espero essa consulta.” A frase da servidora pública Jaquelice da Luz Pereira traduz a realidade de milhares de famílias que vivem à espera de um diagnóstico e acompanhamento para crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e outras neurodivergências. Na 2ª Semana Nacional da Saúde no Tocantins, realizada até domingo (12/4), nas cidades de Palmas, Araguaína e Gurupi, o Judiciário tocantinense mobiliza uma força-tarefa para ampliar o acesso a esses atendimentos, encurtar filas e garantir que essas pessoas passem a receber o cuidado necessário no tempo certo.

Lucas Nascimento
Jaquelice aprendeu a reconhecer no silêncio do filho os sinais de algo maior. Enzo, de 4 anos, não falava. Vieram outras dificuldades com alimentação restrita, resistência a limites e crises. “Cada dia o caso dele só vai se agravando”, conta. O encaminhamento veio cedo, mas o atendimento, não. Foram mais de 12 meses esperando. Quando finalmente recebeu a notícia de que seria atendida no Centro Estadual de Reabilitação (CER) de Palmas, durante o mutirão da Semana Nacional da Saúde, ela respirou e celebrou.“Foi satisfatório. Eu só quero descobrir o que ele tem e que ele tenha um atendimento justo”, disse Jaquelice, com a esperança de finalmente entender o que há por trás dos sinais que apontam para o espectro autista no filho.

Uma luta que atravessa anos

A história de Daiane Pereira da Cruz, mãe de Daniel, 6 anos, não cabe em uma linha do tempo simples. São seis anos de tentativas, consultas e incertezas. “Eu já estou atrás disso há seis anos. Nunca consegui um diagnóstico.”
Ela saiu de Itacajá em busca de atendimento. Mudou-se para Palmas, reorganizou a vida, mas a resposta continuava incompleta. “A sensação é de uma batalha muito grande.”

Lucas Nascimento
No mutirão, encontrou avanço. “Fiquei feliz demais. Agora eu acredito que ele vai ter o acompanhamento que precisa.” Com apenas quatro meses, Ayla Sofia, hoje com um ano e seis meses, já mostrava sinais de atraso no desenvolvimento. A mãe, Valquíria Lima, percebeu. “Ela não sustentava a cabeça. Era como se ainda fosse recém-nascida.” 

Lucas Nascimento
Desde então, a família percorre um caminho de consultas e encaminhamentos. Mais de um ano de espera por respostas. Durante o mutirão no Centro Especializado em Reabilitação em Araguaína, após passar pela primeira consulta com a neuropediatra, o sentimento é de esperança. “É gratificante estar aqui. A gente só quer entender o que ela tem. É a vida dela.”

Em busca do cuidado 

Já Antônia Pereira Lima da Silva percorreu quase quatro horas de estrada até Araguaína em busca de garantir acompanhamento adequado à filha, Cecília, de 3 anos. Em Praia Norte, cidade onde mora, não há atendimento especializado.
O diagnóstico da filha só veio porque a família recorreu ao atendimento particular, em Goiânia. Desde então, tenta pelo SUS o que já sabe que ela precisa. “Eu só quero que ela tenha qualidade de vida.”

Lucas Nascimento

Nesta quinta-feira (9/4), após passar por atendimento no Centro Especializado em Reabilitação, saiu com a resposta que esperava e com o encaminhamento para o início das terapias. A emoção veio junto.

“Eu queria que as terapias dela começassem logo, no tempo certo. Estou muito feliz, porque é o que ela mais precisava”, disse. As lágrimas, que vieram mais de uma vez ao longo do atendimento, traduzem o peso da caminhada. “Aqui ela vai ter tudo que a gente mais precisa, principalmente ela. Qualidade de vida. É isso que a gente espera: ver ela melhorar.”

Onde começa a mudar

As histórias se repetem com pequenas variações: espera longa, múltiplos especialistas, custos altos, falta de acesso.
Crianças que crescem sem acompanhamento no período mais decisivo do desenvolvimento.
É nesse ponto que a 2ª Semana Nacional da Saúde, iniciada em 6 de abril, atua como ruptura.
Coordenada pela juíza Milene de Carvalho Henrique, a mobilização articula Justiça e rede de saúde para reduzir um dos maiores gargalos atuais: o acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH e outras neurodivergências.
“Estamos com uma grande articulação de atendimentos, especialmente voltados ao público com TEA. Nossa expectativa é acompanhar todos os casos após os mutirões e fortalecer a atuação conjunta”, afirma a magistrada, que também coordena o Comitê Estadual de Saúde do Tocantins (CES/TO).
A continuidade desse cuidado é reforçada pelo secretário estadual de Saúde, Carlos Felinto Júnior. “Na primeira edição, tivemos resultados muito positivos. Agora, reforçamos essa atuação conjunta com o Judiciário e o Conselho Nacional de Justiça para ampliar o atendimento à população e garantir o acompanhamento desses pacientes após os mutirões.”
Na ponta do atendimento, a dimensão do desafio é clara. Segundo a superintendente de Atenção Especializada da Secretaria Municipal de Saúde de Araguaína, Larissa Xavier de Sá Martins, o principal obstáculo não é a ausência de serviço, mas o volume da demanda.
“Estamos em uma região de saúde muito extensa, que abrange cerca de 40 municípios. A demanda é muito alta. Hoje, o tempo médio de espera para a primeira consulta é de aproximadamente seis meses, e cada caso exige um acompanhamento individualizado, sem prazo definido.”
Ela explica que o atendimento envolve uma equipe multiprofissional.
 “São consultas em neuropediatria e psiquiatria, além de avaliação global com psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, assistentes sociais e fonoaudiólogos. É um cuidado completo, que exige estrutura e continuidade.”
No Centro Especializado em Reabilitação de Araguaína, onde parte dos atendimentos acontece, a mobilização já apresenta resultados concretos. De acordo com a supervisora administrativa da unidade, Lucimar Nascimento, o mutirão vai além da ampliação da oferta. “Esse mutirão representa compromisso com a inclusão e com a qualidade do atendimento. Hoje, estamos ampliando o acesso na reabilitação intelectual, com consultas especializadas e acompanhamento terapêutico.”
A resposta tem sido imediata. “Até o momento (quinta-feira, 9/4), já realizamos mais de 300 atendimentos. Estamos levando não só serviço, mas dignidade aos pacientes.”

Força-tarefa

A iniciativa reúne o Tribunal de Justiça do Tocantins, a Secretaria Estadual da Saúde, municípios e instituições parceiras em uma força-tarefa que não apenas julga, mas busca resolver casos complexos.
São mutirões de audiências, com 329 previstas no Fórum da Capital, e atendimentos especializados acontecendo simultaneamente em Palmas, Araguaína e Gurupi, somando cerca de 1,7 mil.
“Esse mutirão é grande pela sua causa, forte pelo que se propõe e importante pelo resultado que vai dar”, resume a juíza.
Para as famílias, não se trata apenas de acesso à saúde, mas de tempo de desenvolvimento que não volta, tempo de infância que não espera, e tempo de aprender, falar e interagir.
Ao encurtar caminhos, o mutirão devolve possibilidades que representam muito para quem já esperou tanto.



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