Mulheres levantam mulheres e criam redes de apoio no empreendedorismo de Palmas | ASN Tocantins


Sororidade

Durante décadas, a ideia de que mulheres “naturalmente competem entre si” foi sustentada e reforçada por modelos sociais historicamente hierarquizados que limitavam o acesso feminino ao poder. Entretanto, essa narrativa não resiste à análise histórica. Nos anos 1930, a psicanalista Karen Horney já questionava a tese de que a competição feminina é algo “biológico”, argumentando que ela é resultado de construções culturais presentes em sistemas onde o reconhecimento social era escasso e mediado pelo olhar masculino.

Nesse cenário, emerge o conceito de sororidade. O termo define um pacto político e ético entre mulheres baseado na solidariedade diante de estruturas de opressão comuns. Ou seja, em contraponto à rivalidade, que foi construída sob a lógica da escassez, com poucas vagas, pouco poder e pouco reconhecimento, essa aliança feminina surge como resposta estratégica e simbólica. Em vez de disputar, elas passam a construir conexões, compartilhar oportunidades e ampliar coletivamente as posições de poder.

Diante desse contexto, se consolidam, apoiadas na sororidade, as redes de apoio entre empreendedoras, uma tendência que nos últimos anos ganhou força na Capital.

Da competição à colaboração

No universo dos negócios, o networking é considerado uma ferramenta indispensável, afinal, empreendimentos sólidos são raramente construídos de forma isolada. Com mulheres, essa realidade é ainda mais evidente. Em um ambiente historicamente marcado por desigualdades de acesso e reconhecimento, o que tem transformado trajetórias não é apenas a estratégia de mercado, mas o vínculo criado.

Para muitas brasileiras, o empreendedorismo tem se consolidado como um divisor de águas. O País já reúne mais de 10,4 milhões de empreendedoras, número expressivo que representa um avanço de 42% desde 2012. Ao estruturar um empreendimento, elas garantem renda, autonomia financeira e encontram nas redes de apoio suporte para avançar e fortalecer sua atuação no mercado.

Mentorias, parcerias, grupos de troca e incentivo mútuo transformam a jornada empreendedora em um percurso coletivo. Assim, empreender deixa de ser apenas uma iniciativa individual e passa a representar um processo de fortalecimento compartilhado, em que liberdade e independência são construídas em conjunto.

Esse apoio de rede feminina é crucial. Todo mundo precisa de troca de informações, de vivências, serve até como inspiração para seguir

 destaca Eliane Silva, pernambucana que se mudou recentemente com sua empresa de crepe no palito para Palmas, e encontrou no Tocantins recomeços e oportunidades.

Mais Sabor crepe no palito

Ela explica que essa conexão surge de forma natural, entre grupos de Whatsapp de fornecedoras da quadra por exemplo, onde ocorrem divulgações e parcerias.

Além disso, ela destaca a importância da equipe que permanece em seu estado natal. Segundo Eliane, são dez monitoras e uma cozinheira que a acompanham nos eventos com o serviço de crepe, enquanto ela gerencia à distância, pelo celular.

Ao formar uma equipe majoritariamente feminina e divulgar outras empresárias, a gestora amplia a capacidade operacional do próprio negócio e cria oportunidades para outras mulheres. Nesse movimento, a rede passa a ser um importante fator de desenvolvimento, o que demonstra que quando uma cresce no mercado, ela tende a abrir caminhos para que outras avancem juntas.

A nova tendência estratégica do empreendedorismo

Dados do Sebrae indicam que mais de 76 mil empresas no Tocantins, o equivalente a 41,8% dos negócios do Estado, estão sob gestão de feminina. Do total de 788.840 mulheres que compõem a população tocantinense, 67.340 estão à frente de empreendimentos, o que representa 42,2% do universo empresarial regional. Embora os números indiquem uma presença expressiva, a analista do Sebrae Luciana Retes aponta que ainda persistem entraves estruturais, como menor acesso a crédito, limitação de conexões estratégicas e sub-representação em espaços de decisão.

Sob essa perspectiva, ela enfatiza que o fortalecimento de redes de apoio surge como uma estratégia central para reduzir desigualdades e consolidam oportunidades. Além de espaços de troca, essas conexões funcionam como mecanismos de orientação, capacitação e indicação de mercado. “Ao promover integração, troca de experiências e parcerias institucionais, ampliam o alcance dos negócios liderados por elas e contribuem para a sustentabilidade das empresas a longo prazo”, enfatiza a analista.

A diretora da Câmara da Mulher Empreendedora e Gestora de Negócios (CMEG), a proprietária da Arezzo Palmas, Grazielly Oliveira, ressalta os desafios vivenciados diariamente pelas mulheres. Filha de comerciantes, cresceu em meio ao setor de autopeças, na época, os pais administravam uma empresa do ramo. Nessa realidade, presenciou situações recorrentes de descredibilização da figura feminina, ao ver clientes ignorando ou questionando a capacidade técnica de sua mãe, julgando que, por ser mulher, não dominaria conhecimentos sobre peças de caminhão.

Para a diretora, episódios como esses evidenciam como estereótipos de gênero ainda influenciam a dinâmica do mercado e reforçam a importância de fortalecer espaços de reconhecimento e apoio às empreendedoras. “Eu lidero um ramo de moda, então, por ser uma área predominantemente feminina nunca encontrei tantas dificuldades, mas é inegável que as mulheres empreendedoras ainda enfrentam diversas barreiras como a deslegitimação. Além disso, o que eu também vejo, como mulher, a questão da tripla jornada também nos impede muito de crescer. Se você não tiver um bom planejamento e uma boa logística, isso atrasa seu desenvolvimento”, salienta.

Dentro dessa lógica, Grazielly enfatiza como as redes de apoio se consolidam como um mecanismo crucial. Para ela é necessário entender que ninguém cresce sozinha e que é importante trabalhar de maneira estruturada para que uma possa aprender com o erro da outra e se fortalecer ainda mais, o que favorece o desenvolvimento, a profissionalização e melhora a economia e o mercado em geral.

Se eu trabalho para que elas cresçam, para que elas não errem, cheguem mais rápido e seus negócios se tornem mais viáveis, isso gera mais lucratividade e dinheiro no mercado e essa roda vai girando. Assim, eu tenho também essa oportunidade de atender mais clientes.explica Grazielly Oliveira, diretora da Câmara da Mulher Empreendedora e Gestora de Negócios (CMEG) e proprietária da Arezzo Palmas

A mentora também vivencia essa dinâmica em sua atuação na CMEG, onde promove palestras, capacitações e atividades práticas voltadas ao fortalecimento da conexão entre empreendedoras. Para Grazielly, que hoje ocupa posição de liderança no campo do empreendedorismo feminino, o principal diferencial dessas iniciativas está na abertura para a troca de experiências. “Tudo pode ser uma oportunidade”, resume.

A percepção da empresária dialoga com a análise de Luciana Retes, referência em empreendedorismo feminino do Sebrae Tocantins. Segundo ela, iniciativas que estimulam a troca entre mulheres empreendedoras refletem um fenômeno mais amplo, já que o empreendedorismo feminino deixou de representar apenas a abertura de empresas e passou a integrar um movimento econômico e social capaz de transformar realidades.

Quando falamos da presença das mulheres no mundo dos negócios, estamos tratando de algo que vai além da abertura de empresas, mas também de um movimento econômico e social que transforma realidades. Nesse contexto, a sororidade deixa de ser apenas um conceito simbólico e passa a funcionar como uma estratégia concreta de desenvolvimento. Do ponto de vista técnico, redes de apoio femininas ampliam o capital social e geram oportunidades. Quando uma mulher indica o serviço de outra, compartilha conhecimento sobre gestão, orienta sobre formalização ou divulga uma marca em suas redes, ela fortalece todo o ecossistema empreendedor. Esse movimento reduz vulnerabilidades, acelera aprendizados e aumenta a taxa de sobrevivência dos negócios comandados por elas.

afirma Luciana Retes, analista do Sebrae



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