O negócio da vida começa em casa | ASN Tocantins


A chegada de um filho muda prioridades, transforma planos e desperta novas perspectivas de futuro. Para muitos pais, o empreendedorismo nasce ou ganha um novo significado a partir da paternidade, seja como alternativa para enfrentar desafios inesperados, seja como forma de construir um legado para as próximas gerações. Nesse contexto, o negócio deixa de representar apenas uma fonte de renda e passa a refletir valores como cuidado, propósito e compromisso com o futuro da família.

É o caso da Sabor à Mesa, empresa que nasceu em um dos momentos mais delicados da vida da família de Márcio Lucélio Alves. Em 2018, após o diagnóstico de Atrofia Muscular Espinhal (AME) do filho Levi, ainda bebê, o casal precisou encontrar uma forma de adquirir uma cadeira importada que custava cerca de R$ 15 mil.

A solução surgiu dentro de casa. A esposa, Laira Braga, começou a produzir panetones trufados para venda. Depois de concluir as encomendas, perceberam que aquele esforço poderia ser o início de algo muito maior.

Quando finalizamos as entregas, olhamos um para o outro e concordamos que era hora de empreender. Ela tinha um sonho de uma empresa nesse ramo e eu tinha o desejo de mudar a nossa realidade. Com isso demos início a nossa empresa.

Márcio Lucélio Alves, proprietário da Sabor à Mesa Congelados

Assim nasceu a empresa, que hoje completa seis anos de atuação e, com uma taxa de crescimento de 25%, atende cidades como Palmas, Porto Nacional, Paraíso, Jalapão e Goianésia. “É por meio da Sabor à Mesa que conseguimos contribuir para o sustento de aproximadamente 30 famílias, entre colaboradores do negócio e profissionais que atendem o Levi.”

Conciliar os cuidados intensivos com o filho e a administração da empresa nunca foi simples. O empreendedor explica que planejamento, definição de funções e confiança mútua fizeram toda a diferença. Enquanto Márcio conduz a área comercial, Laira lidera a produção e a gestão. Segundo ele, o aperfeiçoamento dos produtos e a automatização dos processos é indispensável para que eles tenham mais competitividade.

O empresário conta que a experiência da paternidade também mudou sua forma de enxergar a vida.

O Levi me mostrou o valor das pequenas coisas, das pequenas conquistas. É na gratidão que encontramos o verdadeiro sentido de viver.

Márcio Lucélio Alves, proprietário da Sabor à Mesa Congelados

Mesmo diante do diagnóstico que indicava poucas expectativas de vida para o filho, hoje ele olha para trás com serenidade. Para Márcio, ser pai significa “ser o guardião de sonhos e futuros”, e o maior legado que deseja deixar para os filhos é a certeza de que nenhum desafio é maior que a capacidade de superá-lo.

O gerente do Sebrae Tocantins, Amaggeldo Barbosa, reforça que muitos negócios surgem da necessidade, mas permanecem no mercado porque são construídos com propósito, planejamento e capacidade de adaptação. Para ele, quando a família se torna parte do projeto empreendedor, a empresa deixa de representar apenas uma fonte de renda e passa a ser um instrumento de transformação social, geração de oportunidades e construção de legado entre gerações.

“O empreendedorismo muitas vezes nasce de um desafio ou de um sonho, mas é a dedicação diária que transforma uma iniciativa em um negócio sustentável. O negócio deixa de ser apenas uma atividade econômica para se tornar um projeto de vida, capaz de transformar realidades, gerar desenvolvimento e inspirar outras pessoas a acreditarem que é possível crescer sem perder de vista aquilo que realmente importa”

Amaggeldo Barbosa, gerente do Sebrae Tocantins

Um outro exemplo é a história do fundador da Super Húmus, Marco Tenório. Pai antes mesmo de empreender, ele criou a empresa há mais de 21 anos motivado pelo desejo de produzir alimentos orgânicos para a própria família.

Segundo Marco, oferecer uma alimentação saudável aos filhos sempre esteve entre as prioridades e foi um dos fatores que impulsionaram o negócio. Na rotina da empresa, a família participa ativamente dos processos. Para ele, o processo produtivo e empreender também é uma oportunidade de educar. “As crianças aprendem desde cedo. O processo produtivo envolve toda a família.”

Além disso, os hábitos sustentáveis também fazem parte da educação dentro de casa, e passam de geração em geração. “Quando comem uma banana ou tomam café, já guardam as cascas e separam tudo direitinho para o processo. É algo que ocorre naturalmente.”

Depois de mais de duas décadas de atuação, Marco afirma que a maior satisfação não está apenas nos resultados da empresa, mas em perceber que os filhos cresceram compreendem a importância do cuidado com o meio ambiente e da responsabilidade compartilhada.

É um sentimento de dever cumprido e satisfação.

Marco Tenório, proprietário da Super Húmus

O gestor do Sebrae acrescenta que o sucesso de um empreendimento não deve ser medido apenas pelos indicadores financeiros, mas também pela capacidade de gerar impacto positivo na vida das pessoas e contribuir para o desenvolvimento das comunidades.

“Cada pequeno negócio consolidado representa muito mais do que uma empresa em funcionamento. Ele movimenta a economia local, gera empregos, cria oportunidades e fortalece as comunidades onde está inserido. E quando esse crescimento acontece aliado aos valores familiares, o impacto positivo ultrapassa os limites do empreendimento. Quando os filhos acompanham de perto a rotina de um negócio, eles aprendem, desde cedo, valores como compromisso, ética, planejamento e perseverança. Independentemente de seguirem ou não o mesmo caminho no futuro, essa vivência contribui para formar cidadãos mais preparados para tomar decisões, assumir responsabilidades e enxergar oportunidades. Esse é um legado que não pode ser medido apenas pelos resultados financeiros”, conclui.



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