Os caminhos para a magistratura e as histórias além da toga 


Muito antes das sentenças, das audiências e das decisões que transformam vidas, existiram sonhos, incertezas, dificuldades, escolhas e caminhos percorridos com coragem e esperança. Cada magistrado trilhou uma estrada diferente até chegar à toga, símbolo da Justiça. São trajetórias que raramente aparecem nos autos dos processos, mas que revelam histórias de perseverança, trabalho, estudo e, sobretudo, de pessoas que decidiram dedicar a própria vida ao serviço público.

Neste Dia do Magistrado, celebrado nesta terça-feira (11/8), o Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO) abre espaço para um lado pouco conhecido daqueles que hoje representam a Justiça tocantinense. 

Nenhum caminho é igual ao outro, mas todos têm em comum a determinação de transformar desafios em oportunidades.

 Vocação que nasceu entre livros e processos 

A magistratura não fazia parte da história da família da desembargadora Maysa Vendramini Rosal. Não havia advogados, promotores ou juízes entre seus parentes. O caminho começou a ser desenhado quando ingressou como servidora no Tribunal de Justiça de Goiás, pouco depois de concluir a faculdade de Direito. O contato diário com processos e magistrados despertou uma vocação que definiria sua vida profissional.

Enquanto trabalhava na secretaria de uma Câmara Criminal, buscava aperfeiçoamento em cursos de especialização em Direito Penal e Processo Penal. Ao lado de um desembargador que admirava pela dedicação aos estudos, participou dos bastidores da produção de livros jurídicos. Cabia a ela datilografar, em uma máquina elétrica, os manuscritos escritos à mão pelo magistrado. A cada página, crescia também a certeza de que queria seguir aquele mesmo caminho.

Aprovada no primeiro concurso da magistratura do recém-criado Estado do Tocantins, passou a integrar a geração responsável por estruturar o Poder Judiciário tocantinense. Naquele tempo, o cenário era bem diferente do atual. Segundo a magistrada, havia poucas estradas, fóruns com estrutura precária, processos em papel e máquinas de escrever que acompanhavam a rotina das unidades judiciais. Ainda assim, ela guarda esse período como uma das maiores realizações da carreira.

“Foi uma realização muito grande, porque ajudamos a construir o Judiciário do Tocantins desde o início da criação do Estado”, destaca.

Hoje, à frente da Presidência do Tribunal de Justiça do Tocantins, a desembargadora observa uma instituição marcada pela inovação, pela transformação digital e pelo uso da inteligência artificial. Apesar dos avanços tecnológicos, ela acredita que o maior compromisso continua sendo aproximar o Judiciário da população. Projetos como o JUS em Ação, que leva serviços essenciais às regiões mais distantes do Estado, representam, segundo a magistrada, uma forma de fazer com que a Justiça ultrapasse as paredes dos fóruns e alcance quem mais precisa.

“O desafio é fazer com que o Poder Judiciário melhore cada vez mais a prestação jurisdicional, atendendo a população de forma mais célere e mais justa”, pontua.

Para a desembargadora, a missão do Judiciário não se limita aos processos. Ela também se concretiza em ações que aproximam a Justiça da população e ampliam o acesso aos direitos.

“O Poder Judiciário tem condições de chegar mais perto da população. Além do trabalho que a gente exerce com muita responsabilidade, que é o julgamento das demandas dos processos, desenvolvemos políticas públicas que alcançam crianças, adolescentes, idosos e toda a sociedade.”

O ideal de construir um Estado pela Justiça

A magistratura entrou cedo na vida do desembargador Marco Villas Boas, decano do Tribunal e diretor-geral da Escola Superior da Magistratura Tocantinense (Esmat), impulsionada pelo ambiente de redemocratização vivido pelo Brasil nos anos 1980. Ainda estudante de Direito, acompanhava de perto os debates sobre a Constituição, estagiava em escritórios de advocacia e no Ministério Público e observava magistrados que marcaram sua formação. Entre eles, o nome do desembargador Felipe Batista Cordeiro permanece como referência, cuja ética, conhecimento jurídico e postura profissional despertaram nele o desejo de seguir a carreira. 

O ingresso na magistratura aconteceu quando o Tocantins abriu o primeiro concurso para juiz, em 1989. A insistência de um amigo o convenceu a fazer uma longa viagem de ônibus até Porto Nacional para realizar a prova. A decisão mudaria sua história. 

Na prova oral, uma pergunta definiria muito mais que sua aprovação. Questionado sobre qual seria seu compromisso caso ingressasse na magistratura, respondeu sem hesitar:

“Quero compartilhar esse sonho de construir o Tocantins. O meu ideal de magistrado não é apenas exercer a jurisdição, mas ter uma atuação diferenciada, dinâmica e proativa, trabalhando pela sociedade.” 

A resposta acompanhou toda a sua trajetória. Um dos primeiros juízes do Estado, enfrentou a falta de estrutura dos fóruns e tornou-se pioneiro na informatização do Judiciário tocantinense. Foi o primeiro magistrado da Justiça estadual a utilizar o computador como ferramenta de gestão, muito antes da transformação digital que hoje caracteriza o Tribunal de Justiça do Tocantins. Mais tarde, na Presidência do TJTO, liderou projetos que ampliaram a modernização tecnológica e contribuíram para consolidar uma cultura de inovação que preparou o Judiciário para a era do processo eletrônico e, mais recentemente, da inteligência artificial. 

Para o desembargador, entretanto, nenhuma inovação supera a essência da função jurisdicional.

“Mais do que ler um processo, avaliar uma situação e proferir uma sentença, a missão do magistrado é pacificar a sociedade.” 

O magistrado acredita que a construção de uma Justiça moderna depende da formação permanente de magistrados e servidores, mas também da capacidade de enxergar as pessoas por trás dos processos.

“Eu me orgulho muito de ser magistrado, de ter seguido essa carreira inspirado em grandes magistrados que sempre tive como referência.”

De vigia de cemitério ao Judiciário tocantinense

Quem conhece o juiz aposentado Adonias Barbosa da Silva dificilmente imagina quantas profissões ele exerceu antes de ingressar na magistratura.

Natural de Filadélfia e criado em Dueré, no interior do Tocantins, saiu de casa ainda muito jovem, levando apenas uma pequena mala e muitos sonhos. Chegou a Goiânia sem conhecer a cidade e sem saber exatamente como construiria o próprio futuro. O que encontrou pelo caminho foram oportunidades criadas pela própria disposição de trabalhar.

Antes mesmo de concluir os estudos, cavou um poço de mais de 40 metros para levar água a uma comunidade inteira. Depois vieram os mais variados trabalhos. Ele vendeu carnês, lavou carros, vendeu água nos semáforos, trabalhou como policial militar e passou noites como vigia de um cemitério. Foi justamente entre túmulos e o silêncio das madrugadas que encontrou tempo para mergulhar na literatura, estudar os grandes autores e manter vivo o sonho de concluir a faculdade de Direito.

As dificuldades financeiras nunca interromperam sua caminhada. Para pagar os estudos, fazia “bicos” durante o dia e estudava sempre que encontrava uma oportunidade. Quando conquistou o crédito educativo, fez questão de quitar integralmente o financiamento poucos meses depois de formado.

Vieram então as aprovações em diversos concursos públicos, até alcançar a magistratura. Ao longo da carreira, Adonias ficou conhecido pelo incentivo à conciliação. Em algumas ações de família, realizou mais de dez audiências para evitar que conflitos destruíssem relações definitivamente. 

Para ele, julgar sempre significou muito mais do que aplicar a lei. “A magistratura é uma profissão muito sofrida, porque o juiz carrega o trabalho na cabeça o tempo todo. O que ele tem mais medo é de praticar uma injustiça.”

Essa responsabilidade, segundo o juiz aposentado, só pode ser exercida por quem mantém o olhar humano diante de cada processo. 

“O juiz tem de gostar de gente. E Deus me deu essa oportunidade de gostar de gente. O que eu mais gosto no mundo é de gente.”

Ao olhar para trás, o juiz Adonias resume a própria trajetória nos mesmos valores que o conduziram desde a juventude.

“Vale a pena estudar. Vale a pena ser honesto. A melhor coisa do mundo é você não ter medo.”

Mesmo propósito

As histórias desses e de tantos outros magistrados revelam que não existe um único caminho para a magistratura. Cada trajetória é construída em cenários e realidades diferentes. O que as aproxima é a convicção de que julgar exige muito mais do que conhecer a lei. Exige compreender as pessoas que estão diante dela e um compromisso permanente com a Justiça.



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